REQUIEM

POR UM COMBATENTE DA MEMÓRIA HISTÓRICA

As brumas do luto invadiram os nossos corações. As lágrimas de dor e saudades cicatrizam os nossos olhos incrédulos à fatídica notícia do dia 12 de Setembro de 2016 – o desaparecimento físico de um dos melhores filhos de Angola – Manuel Pedro Pacavira, ou, simplesmente o tio Paca, como sempre o tratei.

Deixa-nos a mercê de um vazio insubstituível e consigo leva para o além memórias e saberes que poucos mais velhos poderão legar às novas gerações. Certamente que não disse nem escreveu tudo, mas legou-nos memórias importantes, que são um contributo inestimável para a História Geral de Angola.

Foi nesses terrenos da memória e dos bens simbólicos que, eu e o tio Paca nos cruzamos. Depois de árduo trabalho, de encontros amenos, momentos de autênticas aulas de história política para mim, que reeditei, primeiro “Mingota”, “Gentes do Mato”, uma novela de costumes angolanos, a seguir editei “O 4 de Fevereiro pelos Próprios”, ou seja, ele próprio como um dos protagonistas de um momento que marca a viragem definitiva no relacionamento entre colonizados e colonizadores; veio depois “JES – JES – uma vida em prol da Pátria” e, finalmente, em 2014 o “Angola e o Movimento Revolucionário dos Capitães de Abril em Portugal – Memórias (1974-1976)”, a única leitura angolana de um momento de viragem definitiva no processo de descolonização do nosso país.

No Kilombo, em Ndalatando, Cuanza Norte, na Maridor, seu escritório privado nas imediações do Largo do Baleizão, em sua casa no bairro Alvalade e depois na Urbanização Nova Vida ou em Roma-Itália, o tio Paca mostrou-se sempre preocupado com a questão da memória histórica da luta pela emancipação de Angola, das invasões estrangeiras até 1990, pela questão da unidade nacional e pela educação patriótica das novas gerações de angolanos.

É revelador dessa preocupação a dedicatória inserta no último livro: “Dedico estas memórias ao nosso filho Uatana Feijó Pacavira e aos seus amigos de geração, para os quais o país espera um futuro mais promissor”. Também encontramos, no mesmo livro, uma homenagem, cujo texto diz: “À eterna memória do velho amigo e companheiro de todos os dias, Xico Romão, bem como aos demais camaradas já tombados e ainda vivos, pela grande causa da Pátria Independente.”

Foi-se um combatente que soube fazer o combate em todas as frentes. Ganhou todas, deixou a sua marca e o desafio aos da sua geração independentemente dos campos em que tenham combatido para que não negligenciem a memória.

Tio Pacas é, certamente, um dos angolanos com quem convivi e trabalhei com prazer; que despertou e reforçou em mim o sentido do dever. Desde muito cedo ganhei admiração, afecto e muito respeito por ele. No seu modo muito peculiar de ser, soube sempre de forma sábia e comedida exercer autoridade sobre os que rodeavam.

Enquanto Editor, lembro-me, agora com saudade, da boa conversa e do bom e construtivo debate sobre títulos e capas, no momento da edição de cada livro seu: Mingota, Gentes do Mato, O 4 de Fevereiro pelos Próprios, JES – uma vida em prol da Pátria e ANGOLA e o Movimento Revolucionário dos Capitães de Abril em Portugal – Memórias (1974-1976).

Tio Paca deixa em mim e na Mayamba Editora o retrato de um ser humano enorme, um pai conselheiro, amigo, um patriota a tempo inteiro; de trato fino que muito se preocupava com o bem-estar de todos, mas sobretudo com a afirmação dos angolanos em todos os campos da vida nacional – especialmente no campo da edição de livros.

Arlindo Isabel

Editor da Mayamba Editora